2ª fase da OAB: a estrutura de peça que a FGV espera ver
A peça processual vale metade da nota da 2ª fase da OAB. Veja a estrutura previsível que a FGV espera — endereçamento, fatos, fundamentação, pedidos — e os erros que zeram pontos.
A 2ª fase da OAB é dividida em uma peça profissional (peso 5) e quatro questões discursivas (peso 1,25 cada). Se você ainda está se preparando para a 1ª fase, o conteúdo deste post é a próxima etapa. A peça é metade da nota da 2ª fase, e candidatos costumam perder pontos não por desconhecer o direito material, mas por errar a forma. A FGV publica espelhos detalhados após cada exame — eles deixam claro que a banca premia estrutura padronizada.
Este texto mapeia a estrutura genérica de peça que cabe em quase toda área, identifica os erros que zeram pontos previsíveis e propõe um cronograma de treino de duas semanas.
A estrutura genérica que cabe em quase toda peça
Independentemente da área (Civil, Penal, Trabalho, Tributário, Constitucional), uma peça da 2ª fase tem oito blocos previsíveis:
- Endereçamento — autoridade competente, com a designação correta (Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito da Vara X da Comarca Y).
- Espaço para qualificação — recomenda-se deixar três linhas em branco indicando que o nome, CPF, endereço seriam preenchidos. Não invente dados; o enunciado pode dispensar.
- Nome do peticionário e título da peça — “Fulano de Tal, já qualificado nos autos, vem respeitosamente apresentar [nome da peça] em face de [parte contrária], pelos fatos e fundamentos a seguir.”
- Dos fatos — síntese dos fatos relevantes que constam do enunciado. Não copie o enunciado literalmente; reescreva em linguagem técnica.
- Do direito — fundamentação jurídica. Aqui mora a maior parte da nota: dispositivo legal expresso, súmula aplicável, jurisprudência se cabível, doutrina se houver espaço.
- Dos pedidos — relacione cada pedido em alíneas (a, b, c…). A FGV pontua cada pedido separadamente; faltar um derruba nota mesmo que a fundamentação esteja correta.
- Valor da causa, requerimentos finais e provas — quando exigido pelo tipo de peça. Em ações cíveis, sempre. Em peças penais (resposta à acusação, alegações finais, recurso), raramente.
- Fechamento — “Termos em que pede deferimento. Local, data. Advogado, OAB nº…”. Não escreva seu nome verdadeiro nem o número da OAB; use marcadores (“Advogado”, “OAB/UF n. …”).
Detalhamento por área
A estrutura genérica é base. Cada área traz especificidades de endereçamento, peças cabíveis e elementos obrigatórios.
Direito Civil
Peças mais cobradas: contestação, apelação, agravo de instrumento, embargos de declaração, ação de cobrança, ação de execução, embargos à execução.
- Endereçamento em primeira instância: “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz de Direito da Vara Cível…”.
- Endereçamento em 2ª instância: “Egrégio Tribunal de Justiça do Estado de…” (apelação, agravo).
- Sempre incluir requerimento de provas e valor da causa (em ações que demandam essa especificação).
Direito Penal
Peças mais cobradas: resposta à acusação, alegações finais, recurso em sentido estrito, apelação criminal, habeas corpus.
- Habeas corpus: o endereçamento varia conforme a autoridade coatora. Coação por delegado: juiz de 1ª instância. Coação por juiz: tribunal. Coação por desembargador: STJ. Coação por ministro do STJ: STF. Errar o endereçamento de habeas corpus zera o item.
- Em alegações finais, articular preliminares antes do mérito.
- Não incluir valor da causa nem rol de testemunhas (peça já tardia para isso).
Direito do Trabalho
Peças mais cobradas: reclamação trabalhista, contestação, recurso ordinário, recurso de revista.
- Endereçamento: “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz do Trabalho da X Vara do Trabalho de…”.
- Valor da causa sempre obrigatório.
- Pedidos em rito sumaríssimo (até 40 salários mínimos) têm regras próprias — atenção ao enunciado.
Direito Tributário
Peças mais cobradas: mandado de segurança, ação anulatória de débito fiscal, embargos à execução fiscal, ação declaratória, repetição de indébito.
- Endereçamento varia conforme o tributo (federal: justiça federal; estadual/municipal: justiça estadual).
- Em mandado de segurança, identificar corretamente a autoridade coatora.
- Articular sempre o pedido de tutela provisória de urgência (quando os fatos justificam).
Direito Constitucional / Administrativo
Peças mais cobradas: mandado de segurança, ação popular, ação civil pública, recurso ordinário constitucional.
- Atenção à competência originária quando a autoridade é federal de alto escalão (ministros de estado, presidente, etc).
- Ação popular: legitimidade ativa restrita ao cidadão (eleitor); pedido específico de anulação de ato lesivo ao patrimônio público.
Direito Empresarial
Peças mais cobradas: recuperação judicial, falência, ação cambial.
- Em recuperação judicial, atender requisitos do art. 51 da Lei 11.101/05 (lista de credores, demonstrações contábeis dos três últimos exercícios, etc).
- Em ação cambial, identificar corretamente o título de crédito e os obrigados.
Erros que zeram pontos previsíveis
Endereçamento errado
Endereçar habeas corpus para juiz singular quando a competência é do tribunal zera o item do endereçamento e contamina a peça inteira. Tribunal: “Egrégio Tribunal de Justiça”, “Egrégio Tribunal Regional Federal”, “Excelso Supremo Tribunal Federal”. Juiz singular: “Excelentíssimo Senhor Doutor Juiz…”. Erre o endereçamento e até 2 pontos podem evaporar.
Nome próprio na peça
A FGV elimina candidato que se identifica. Não escreva seu nome, número da OAB real, ou cidade onde mora. Use sempre “Advogado, OAB/UF nº …”. Algumas edições eliminaram peças por menção a “advogado de São Paulo” quando o enunciado se passava em outro estado.
Atenção também a:
- Datas reais (use “(data)” ou data fictícia coerente com o enunciado, nunca a data real da prova).
- Identificação do escritório.
- Marcas pessoais inadvertidas (ex.: comentários laterais como “esse cliente é difícil”).
Pedidos incompletos
A peça pode estar excelente em fundamentação, mas se faltou pedir a tutela provisória de urgência (quando os fatos exigiam), o item correspondente fica zerado. Antes de redigir, monte mentalmente a lista de pedidos: pedido principal, pedidos subsidiários, tutela provisória se cabível, condenação em honorários, gratuidade de justiça, produção de provas.
Checklist de pedidos que vale revisar antes de fechar a peça:
- Pedido principal (o que o cliente quer obter).
- Pedidos subsidiários (alternativos, caso o principal não seja deferido).
- Tutela provisória de urgência (cautelar ou antecipada) quando cabível.
- Designação de audiência.
- Produção de provas (documental, testemunhal, pericial).
- Citação/intimação da parte contrária.
- Condenação em custas e honorários.
- Gratuidade de justiça (quando cabível).
- Atribuição de valor à causa (em ações cíveis e trabalhistas).
Faltar qualquer item desse checklist é perda direta de ponto.
Fundamentação genérica
“Conforme determina a Constituição Federal” não vale. Cite o artigo: “Art. 5º, LV, CF/88”. Em Direito Civil, indique o artigo do Código Civil. Em Penal, o tipo penal específico. A FGV procura dispositivo expresso no espelho de correção, e a frase doutrinária genérica não substitui.
Confusão entre peça originária e recurso
Em alguns enunciados, o enunciado descreve uma situação em que cabem várias peças possíveis. Escolher a errada significa abandonar todo o espelho daquela peça. Se o enunciado deixa em aberto, identifique a peça com base em: (a) momento processual descrito; (b) ato a ser combatido; (c) prazo previsto na lei processual.
Em caso de dúvida séria, costuma ser melhor escolher a peça mais ampla que cabe (ex.: apelação em vez de embargos de declaração) e desenvolvê-la com qualidade, do que insistir numa peça duvidosa.
Como treinar peça em duas semanas
- Dia 1: estude o espelho de correção da peça mais recente da sua área. Identifique a estrutura, os pontos, os pesos.
- Dia 2 a 7: faça uma peça por dia, em folha pautada, manuscrita, com cronômetro (2h 30min).
- Dia 8 a 14: refaça as peças dos dias 2 a 7, agora consultando o seu próprio espelho. Compare item por item.
Refazer a mesma peça com calibração do espelho é o que move sua nota mais rápido. Fazer 30 peças diferentes uma vez só rende menos do que fazer 7 peças três vezes.
Acabamento na 24h anterior
Na véspera da prova, faça apenas duas coisas:
- Reler espelhos das duas peças mais cobradas da sua área nos últimos três exames. Identificar o “modelo padrão” da FGV.
- Refazer mentalmente o checklist de pedidos da sua área. Anotar em uma folha o checklist e levar pra sala (caso permitido pelo edital — em geral, sim, anotações em material pessoal são liberadas).
Não tentar peça nova. Você vai ficar ansioso com a comparação. Foque em consolidar o que já sabe.
O risco da escolha de área
Em alguns exames, a escolha da área (Civil, Penal, Trabalho, Tributário, Empresarial, Constitucional, Administrativo) é feita no ato da inscrição da 2ª fase. Erre essa escolha e você está estudando a área errada — irreversível dentro daquele exame. Decida cedo: idealmente assim que o resultado da 1ª fase sair, com base em afinidade, não em “menor concorrência”.
Critérios racionais para a escolha:
- Afinidade pessoal: em qual área você teria prazer de trabalhar na carreira?
- Histórico de notas: em qual disciplina você tirou mais alto na 1ª fase?
- Cobertura de material disponível: para qual área você tem maior acervo de provas anteriores e espelhos?
- Tipo de peça mais cobrada na área: peças com estrutura padronizada (Civil, Trabalho) são mais “decoráveis” do que peças com variabilidade (Penal, em especial habeas corpus).
A escolha por “menor concorrência” é falaciosa: a aprovação não depende de concorrência relativa entre áreas — o critério é nota mínima absoluta. Você não compete com candidatos de outra área.
Onde o Gabaritei ajuda
O acervo de peças anteriores da FGV no Gabaritei vem com espelho de correção oficial integrado — você responde a peça, marca os elementos esperados e calibra onde perdeu ponto. Para a maioria dos aprovados, é o exercício de maior retorno por hora investida no mês anterior à prova.